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Escute o podcast do episódio 4 na íntegra: clique nos três pontinhos e depois em "tocar no Spotify"

     – Será que sai fácil?

     – Oxe, por quê?

     – Pra gente retocar de vez em quando.

     – Menina, tentei na cara-dura talhar meu nome aqui uma vez. Segurança correu. Proibido. Eu vi tantos nomes, pensei que podia. 

     – Tu tava só?

     – Com Cecília e Meire, duas amigas.

     – Tu vem todo sábado aqui?

     – Simmmm, desde a semana passada.

     – Gaiata. E vem fazer o quê? 

     – Pergunta complexa.

     – Responde se quiser.

     – Ah, venho andar por esse pedaço do Centro, sei lá, a cidade vingou aqui, deve haver uma energia telúrica, cósmica, não sei que lá, não sei mais o quê, essa energias aí em abundância, sabe? E tu? Visita guiada?

     – Queria ir no museu, mas tá fechado, ai, eterna reforma, parece um coma profundo. Então me juntei àquele tour.

     – Qual museu?

     – Do Ceará.

     – Nunca vim. É legal?

     – Faz tempo que não venho, sabe. A minha avó me trazia sempre, aí, tinha um cheiro de guardado, eu espirrava, mas adorava. Ei, bora então na Catedral?

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     Os taxistas do Centro são grisalhos e vestem cambraia de linho. A escada é logo ali, no cheiro do jasmim com chuva. O cinza imita pedras. Elementos neogóticos espetam quem sobe. 

     – Meu Deus, essas músicas em latim são a cara da Sessão da Tarde. 

     – Quando entro em uma igreja vazia, tipo essa, os romeiros sempre abanam chapéus. 

     – Aquelas duas senhoras, elas poderiam até ser as minhas avós, o mais perto do divino que consegui chegar. 

     – Uma vez, fui dama de honra com minha irmã e chegamos atrasadíssimas, bem na hora da troca das alianças. 

     – Eita.

     Na minha periférica, Jana sem óculos, olhos que poderiam ser de uma oriental, cílios pretíssimos, sardas suaves até mais ou menos o meio das maçãs, cantarola a Oração de São Francisco. Na frontal, Nossa Senhora da Assunção, com os braços erguidos, aparece para um anjo inteiro e uma cabeça de anjo. 

     A Benção da Pedra Fundamental foi no dia 15 de agosto de 1939. Cerimônia Inaugural em 22 de dezembro de 1978. Apertamos botõezinhos e acendemos velas de led para São José. Peço pelas almas dos que despencaram dos andaimes, enquanto encaixavam cada pedaço colorido dos vitrais de papas e santos. 

     – Quando eu tinha sete anos, passei dois anos sofrendo até poder confessar o mais mortal dos pecados, cometido na missa relâmpago que tinha diariamente antes da aula, na capela do colégio que eu estudava.

     – Como foi isso, Jana?

     – Eu tava na primeira fileira e não consegui ou, sei lá, não quis escapar quando o padre ofereceu na minha cara o corpo de Cristo. Abri a boca, estiquei a língua, me ajoelhei, hóstia no palato, roguei voltar no tempo, desviar o destino, mas não deu, mulher, não deu certo. Só me restou ser cúmplice da minha culpa, minha tão grande culpa: comungar sem fazer primeira eucaristia, tu acredita? Ai, jamais alguém tinha ousado. Esse negócio é imperdoável. 

     – E aí você contou pra alguém?

     – Que nada, mulher, ardi na fogueira até o dia mais rogado: a primeira confissão das nossas vidas, terceira série F bem sentadinha no auditório, short jeans, blusa branca com o brasão da escola, sapato carinha de bebê preto ou kichute preto amarrado normal ou nas canelas. Minha vez. Conto pro padre. Ele me manda rezar cinco ave–marias e três pai-nossos, eu acho tão pouco, mas ele diz que é o suficiente pro perdão de Deus. Se ele disse, né?

     Acompanho as badaladas para confirmar as horas. Uma. Duas. Três. Portas altas e largas enquadram a paisagem. Um pedaço arredondado do Mercado Central. Um prédio histórico azul, que abrigou no passado algo que já esqueci e há alguns anos virou o Casarão dos Fabricantes. Ao fundo, uma carnaubeira.

     Na calçada da Catedral, Jana volta a falar do Museu do Ceará.

     – Eu ia direto ver a maquete de Fortaleza, feita a partir da primeira planta da cidade. Imagina o tanto que ventava aqui em 1726! Era tudo um areal, com um forte de pau a pique, pelourinho, casa de câmara, uma cadeia, igreja e forca. Tem também casa de moradores, o riacho Pajeú dividindo a cidade em duas, algumas árvores espalhadas pelo local, pessoas, animais, meios de transporte, o mar bem próximo ao vilarejo. Eu achava mágico. Queria saber cada detalhe. Um dia, minha avó inventou um jogo, exatamente aqui onde a gente tá. Eu apontava em várias direções, dizendo como era antes, depois, escolhia três lugares, a gente chegava perto, tentava encontrar vestígios dos elementos da maquete, meu pé enterrando na areia, minha vó sem entender o meu andar arrastado.

     – Um areal branco, sol a pino, muito vento e à direita uma duna alta.

     Não há construções, ruas, gente, apenas uma mulher sentada. 

     Vê, no alto do morro, alguém que rasteja e acena.

     Corre pra ajudar. 

     É uma jovem indígena, nua, com queimaduras de sol e pés em carne viva. 

     Sedenta. 

     A mulher segura a moça pelo braço, arrastando-a morro abaixo da forma que consegue. 

     A moça se dá conta que encontrou alguém. 

     Ou foi encontrada. 

     Anoitece do nada. 

     Elas chegam até o riacho. 

     A mulher refresca a moça.

     Não molha os pés, que ardem.

     Brasa, brasa, brasa, brasa.

     A moça, queimando em febre, fala assim: 

     – Bárbara, Bárbara, cadê você? 

     Elas dormem. 

     A mulher acorda. 

     Percebe que a moça está morta e se conforma, como se já soubesse. 

     Tempo fechado. 

     Vento.

     Vento.

     Vento.

     Neblina.

     A chuva engrossa. 

     A mulher avista uma cruz, para onde arrasta a morta.

     Cava, cava, cava, cava, até perceber que a areia branca e fina abre sozinha. 

     Enterra a moça.

     Quando a cobre acha sementes marrons, parecidas com feijão de corda gigante. 

     Sementes de baobá.

     Jana escuta sem comentar e eu quase me explico. Parece delírio, mas é sonho recorrente. 

     – Quando eu era criança, me contaram ou fui eu que inventei, que na depressão do asfalto da Conde D´eu com a Rua Sobral dormia uma baleia. 

     – Ei, vai ter uma festa no Lions hoje às 17 horas. Bora?

     – Jana, só você pra me levar pra uma festa hoje. Topo.
 

FIM

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