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Escute o podcast do episódio 3 na íntegra: clique nos três pontinhos e depois em "tocar no Spotify"

     Nada de Jana. Sento em um banco quase molhado. Tenho almoço na mochila. Macarrão–parafuso com molho de tomate de sachê, passas, queijo coalho, milho de sachê. Amo esquecer que trouxe comida e lembrar num susto. 

     – Oiê.

     – Olha, que ótimo, me achou.

     – Eu vi quando você chegou, mas aí eu dei um tempo, né, pra você se plantar.

     – E a tua amiga?

     – Não, ela só existiu ali, quando a gente se despediu na praça. Ei, eu trouxe salpicão.

     Estico uma canga na terra. Deito. Fresquinho o chão. Jana senta, joelhos dobrados, all star nos bancos. Abre com os dentes um chocolate branco, divide, me dá a parte maior. Fica de pé nas ripas verdes. Me faz subir também. Aponta pro Marahope e diz que foi lá nadando, com uma turma, em noite de lua cheia. 

     – A gente subiu por uma escadinha muito enferrujada. Era tanta da barata voadora, tu acredita?

     – Deusa me livre, que horror. Eu com certeza desmaiaria. Não, mulher, juro, não sei como alguém tem coragem de subir ali. Nadar até lá, aí, tudo bem, acho até que eu me garanto.

     – Eu tive tanto medo de despencar no meio daquele eco o puro ferrugem, que esqueci até das cucarachas. Assim, eu não morreria se elas partissem pra cima de mim, mas voltar eu não voltaria nem a pau. Tem coisa que é só uma vez, só pra experimentar. 

     – Ei, você tá achando estranho a gente ainda não saber quem somos?

     – Tu diz assim existencialmente ou assim só nós duas, agora?

     – Agora. Mas, sabe, tô gostando de pular perguntas do tipo faz o quê, mora onde?

     – É, a gente não falou dessas coisas! Acredita que eu nem me toquei?

     – Quer fumar? É solto.

     – Ai. Será?

     – Ah, a gente pode acender uns incensos pra disfarçar. 

     – Mentira que tu anda com incenso?

     – É claro que não, doidinha. Vou rapidinho ali comprar. Me espera aqui?

     – É sério mesmo?! Ah, então, eu vou também, assim a gente não perde tempo de convivência.      Uma amiga uma vez disse pra irmos juntas pra não perder tempo de convivência. Ela tinha 22 anos e um vocabulário tão formal! Essa frase me marcou e sempre que posso imito. É um negócio assim, não perder tempo. 

     – Hahaha.

     Na descida pela João Moreira, Jana sacode um espantalho de camisa quadriculada azul, enganchado no toldo da loja de artesanato. Flamingos, galos, cestas, cestas, cestas, cestos, luminárias, sapatos, peixes, tucanos, cabeças de boi, cabeças de veado.

     – Hoje ao passar pelos lados / Das brancas paredes, paredes do forte / Escuto ganidos, ganidos, ganidos, ganidos / Ganidos de morte / Vindos daquela janela / É Bárbara, tenho certeza / É Bárbara, sei que é ela./ Que de dentro da fortaleza… 

     – Que música é essa? O teu nome vem daí? 

     – Minha mãe cantava pra mim. Ela murmurava as partes mais punks. É do Ednardo. E o teu nome, vem de algum lugar?

     – De Janaína mesmo, na certidão erraram, tem Jana. Meus pais só viram quando inventaram isso de mapa astral. Nasci às dez e quinze.

     Quase pergunto o signo dela, mas deixo pra depois, gosto mesmo é de adivinhar. Dobramos à direita na General Bezerril. Hotel Catedral. Centro Comercial Catedral. Catedral Tecidos. Na avenida em frente, um ônibus estacionado, porta-malas escancarado, recebe pacotes gigantes com artigos de confecção, comprados de madrugada na feira da Zé Avelino e de manhã nos galpões do entorno. Os viajantes nem chegam a dormir na cidade. Depois do comércio retornam pro Maranhão. Pará. E Tocantins.

     – Isso aqui é uma delegacia, é?

     – Doida! Nem grade tem. É uma pousada, tá ali a placa, ó. Pousada Campina Grande.

     – Ô, mas, também, esse birô pesadão na entrada me confundiu.

     – Menina, a gente vê tanta coisa sem enxergar direito, né? Mais cedo passei tão rápido por aqui que, em vez de “Galeria Central: Temos boxes disponíveis”, eu li assim, ó: “Temos boys disponíveis”.

     – Hahaha. Mas também com essas plumas radiantes do lado da placa, né? Eita, ô incenso difícil, viu.

     – 3, 2, 1. Chegamos.

     Budha feliz: Meditação e Espiritualidade. Sal Grosso Canforado: Limpeza Total. Escolho Canela: Paz e Amor. A moça colorida que me atende é a protagonista das fotomontagens expostas na parede laranja ao lado do balcão: Taj Mahal, Rio Ganges, Templo de Lótus, Templo de Akshardham. Sentada no chão, certa mulher alinhava um tapete roxo, que cobre quase todo o chão da loja. Na frente dela, uma senhorinha empilha pequenas embalagens amarelas, que lembram caixinhas de fofolete. 

     Nas imagens de satélite, o Passeio Público é um amontoado de buquês de brócolis, cercados por retângulos cinzas e cor de telha, uns maiores, outros menores, todos pequenos. A vida é melhor duas nuvens à cima. 

     Acendo dois incensos e enfio na terra.

     – Ei, Bárbara, tu é dos rituais?

     – Sozinha, faço de conta e nunca funciona. Agora, em grupo, aí, eu embarco mesmo. Catch a fire, né, não? A capa desse disco é foda demais, né, não?

     – Como é? Eu acho que nem lembro.

     – Então nunca viu. Impossível esquecer.

     – Tu já fumou aqui?

     – Ah, umas duas vezes, mas faz tempo. Tudo vai ficando assim mais verde–amazônico, né?

     – Tu tá escutando muitos passarinhos?

     – Hahaha. Menos que você, eu acho.

     – Tu acha que o cheiro do incenso tá forte?

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     Verde cada vez mais real e mutante, muitos tons de verde. O fundo é azul-celeste, fosco nas nuvens, resplandecente ao redor. Quando bate água no chão, aqui fica totalmente diferente. A cor, o ambiente. Uma senhora passa assobiando, afinal, é sábado de sol mesmo quando não há sol.

     Vento, vento, vento. Mesmo que venha morno impede o mormaço de chegar no corpo. Existiam mais ou menos árvores naquele tempo em que todo mundo vinha pra cá de mangas compridas? Folhas caem o tempo todo. Picolé de fruta e com cobertura. Jana me olha chegando perto, você é linda. Sorrio, sem graça, nem comentários. Admiro quem fala assim na lata e meu impulso é tacar de volta um linda é você, mas digo só no pensamento, reino intocável do secreto.       Essa estátua não tinha braços mesmo? Por um bom tempo foi apenas de ferro? Descascada, fica bem sexy. É bonita a flor de jambo. Eu nunca consegui subir num pé de jambo. Pedregulhos fazem caminho na terra preta. Aqui tem sombra. Não pega grama.

     – Como é o nome da música do Ednardo?

     – Passeio Público. Quer escutar? Tem no YouTube.

     Abro minha mochila e tateio dentro, cadê meu celular. Nunca encontro, sempre acho que perdi, remexo, apalpo, penso no preju, apalpo, balanço. E acho, onde primeiro meti a mão. Ufa, escapei de virar a bolsa ponta-cabeça, falhas da biografia despencando uma a uma. Procuro a música no aplicativo, teclo letra certa, deleto letra errada. Tá escrevendo um e-mail, Bárbara? 

     Conecto os fones e entrego pra Jana, que coloca um em mim e outro nela. Seus dedos na minha orelha. Vou dividir essa música com essa desconhecida e sinto mais esperança do que vergonha. Minha mãe nunca me ninou com Passeio Público. Aumento um ponto às vezes. Invento verdades em vez de desejos.

     Não sei quanto tempo ficamos em silêncio, depois que a música acabou. Bárbara de Alencar. Capturada aos 57 anos no Crato é considerada a primeira presa política do Brasil. Mulher importante, no tempo em que mulher era nada. Dizem que Brasilina, escrava dela, acompanhou a pé dona Bárbara ser trazida pela mata, acorrentada no lombo de um cavalo, do Cariri até Fortaleza. 

     Levanto e me alongo. Pernas, braços, pescoço, como se eu fosse de elástico. Nada dói.

     – Bárbara, chuta que horas são?

     – Medo. Faz um século que a gente tá sentada aqui, né? Quatro horas?

     – Eita, percepção do tempo alteradíssima. Duas em ponto. 

     – Eita pau.

     Jana admira as árvores da direita, da base ao topo. Eu, as da esquerda, enquanto ela lê em voz alta os nomes nas plaquinhas cravadas na terra preta e titubeia no latim, sem saber qual é a sílaba tônica. Macaúba: Acrocomia aculeata. Jucazeiro: Caesalpinia férrea. Pau D'arco roxo: Tabebuia Avellanedae. E vai virando pra mim, olha essa, já viu aquela, e essa outra?, e eu, nunca, jamais, só na internet.

     – No final de julho, começo de agosto, o povo vem homenagear esse baobá. Chegam, tiram os sapatos, acendem vela, se ajoelham. Nunca vi. Me falaram. 

     – Tu acredita em tudo que te contam, Bárbara?

     – De dez pessoas que entram, nove tiram foto aqui. A raiz tá batendo lá no Mercado Central. 

     – É tão louco pensar que uma árvore desse porte já foi uma sementinha!

     – Louquíssimo. Continua crescendo, será?

     – Essas raízes parecem patas de dinossauro e a parte que sobe e forma o tronco são as pernas, bem juntinhas.

     – Tu já pensava isso ou é por causa da brisa?

     Tiro a sandália. Subo nas patas de dinossauro. Arrudeio as pernas, bem juntinhas, até completar o giro. E assim ganho massagem dos protuberantes pés desse parente pré-histórico na planta das minhas patas. 

     – Cláudia e Jonas. Gabi e Kiko. Simone e Ciro. Mariana e Thiago. Ai, tá muito heteronormativo pro meu gosto esse baobá, talhado a estilete e pincelado com liquid–paper.

     – Corretivo líquido, menina. Deixa de ser colonizada. Bota aí Bárbara e Jana, 31/05/19.

     – Sério?

     – Sério, vai. E aí, vai escrever não? 

     – Tu vai comprar o corretivo?

     – Eu tenho na mochila, bobinha. Deixa que eu faço.

     Saboreio aquela euforia que só bate quando aceito viver uma ousadia. Minha sobrinha pinta as unhas com liquid–paper e desenha em cima formigas, aranhas, lagartixas. O que ela soltaria se adivinhasse que, com corretivo, duas chapadas pincelam letras de fôrma em uma adansonia digitata centenária?

     – Termina logo, já tá perfeito.

     – Vem vindo alguém, é?

     – Não, mas quero ir embora.

     – Espera, falta a foto.

     – Como é que é? Olhe, você fique na sua.

     – Deixa a gente em paz, cara. Que saco.

     E se ele nos perseguisse? Impossível ninguém ter visto. Foi rápido. Nada fizeram. 

     Saímos do Passeio. Desviamos dos buracos na calçada da Major Facundo. Dobramos à esquerda no prédio onde já funcionou o Banespa, dizem que o proprietário já vendeu até as correntes dos elevadores, menos o cofre gigante. Não há quem consiga tirar o trambolho de lá. 

     Um abraço. 

     Ficamos assim por um tempo. 

     Ela dá um gole na água. 

     Devolve sem me olhar. 

     Tira os óculos e aperta os olhos, como fazem os míopes.

     Tenta entender onde está. 

     Pego seus óculos. 

     Seco com a barra do meu vestido. 

     Coloco em seu rosto o mais lentamente que posso, olhos que poderiam ser de uma oriental, cílios pretíssimos, sardas suaves até mais ou menos o meio das maçãs.

     Ela protege a alma do meu cuidado invasor, ajeitando as hastes atrás das orelhas, para onde leva as laterais do cabelo transtornado. 

     Não há lado da sombra a essa hora. 

     Dobramos à esquerda de novo. 

     Sua cabeça no meu ombro direito.

     Meu braço transpassado nas suas costas. 

     Costelas expandindo.

     Retraindo. 

     Expandindo.

     Retraindo.

     Enquanto a Floriano Peixoto se faz em vento e cheiro de abacaxi. 

     Nada disso aconteceu. Mais um surto pra coleção.

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