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Escute o podcast do episódio 2 na íntegra: clique nos três pontinhos e depois em "tocar no Spotify"

     Uma cigana toca meu ombro e eu escapo. Uma estrangeira, como Clarice, vestido em linho cru, chique e minimalista, sapatilhas com calcanhares à mostra, entra na loja de cosméticos mais famosa do Centro, com umas quentinhas para o almoço. Quase tropeço em quatro manequins nus, amarrados e decapitados, que alguém descartou atrás da banca de numismática, onde uma mulher branca negocia um barão de cruzeiros a 30 contos de real. 

     Dez coxinhas, dois reais. 

     Linda morena/Fruta de vez temporana/Caldo de cana caiana/Vou te desfrutar! Sempre cantei fruta de destemporânea e meu sonho é saber por que a gente morre de rir com os comentários das postagens canto errado. Glória Piressss, Mirian Piresssss. Essa versão do tema de Flash Dance sempre me arrancou descontroladas gaitadas, até ouvir por você vou roubar os anéis e usar tuuudooooo, aí, zerou o jogo. 

     Como devem ser por dentro esses sobrados com galhos e concreto, madeira e tapume, tijolos fechando as janelas? Um dia foram inaugurados e não sei quanto tempo mais a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção vai resistir. Sorridents Clínicas Odontológicas. Linda Variedades. Borboleta Bolsas. Mega–Sena Acumulada, 12 milhões. Salgado mais suco pronto, 6,90. Gálgala Bag Shoes. Gracom School Of Visual Effects. Sorridents Clínicas Odontológicas. Estacionamento com entrada pela Floriano Peixoto e Major Facundo. Temos carência. De 10 minutos. Pedaços e pedaços de papelão salvam do derretimento os assentos pretos de uma, duas, três, quatro, nove, treze, dezenove Hondas CG 160 vermelhas, estacionadas lado a lado, pneus traseiros beijando o meio-fio. 

     Sinto pena dos vendedores de lojas vazias. 

     Será que as pessoas me veem? 

     Sorrio pra disfarçar estranhezas. Paro numa lanchonete, compro litro e meio de água gelada, tomo na boca da garrafa quase a metade. Cinco mulheres africanas em túnicas vendem cores para uma senhora que talvez se interesse por algum dos modelos ilegítimos das sandálias do seu Espedito Seleiro da loja em frente. Almoço doze reais, comida de hoje. Conjunto de lingerie, sete reais. Bermuda de academia, dez.

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     Portão do Passeio Público. Chafariz. Paz na sombra. Jana deve chegar em vinte minutos e aposto que vai procurar um banco mais para o lado esquerdo, conversar com alguma desconhecida, garatujar no bloquinho, eu queria tanto saber o que tem nele. Se ficar contente em me ver, digo que encurtei a caminhada e, se a amiga já tiver chegado, oi, tudo bem? Sou Bárbara. Oi, Bárbara, sou Brigite, ou Susana, talvez Márcia. 

     Uma moça de camisa azul e bicicleta cheira o cabelo descolorido de outra moça de calça colada e top de pantera, fala que manda mensagem mais tarde e vai embora, fingindo destino. A moça que fica anda até a banca de bombons, compra um Hollywood picado, se distrai com os chocolates em tempo de derreter e espera o amor da próxima hora, enquanto eu me escondo atrás das grades, como quem deseja ser flagrada. Confecção e artigos para presente no atacado e no varejo, com preços de feira, conforto e segurança de shopping. Não fique correndo de um lado para o outro. Venha para o Shopping Leiria, anuncia a pickup de som. 

     Quase declarei guardiã do Passeio essa estátua de ferro fundido, sem alma, nome e restauro, seminua, no chafariz. Fui salva pelos gritos da professora querida e mandona: devolvam agora os peixinhos para a água. 

     Adansonia digitata. Origem: África. Imune ao corte. Se eu fosse bem mística como uma grande amiga, minha madrinha quântica, abraçaria Adansonia, subiria até a ponta daquele galho mais alto, encostado nas nuvens, que devem ser mornas, e diria: abençoai essa cidade, Baobá. Nos dê presente justo, destino bom e passagem tranquila. Fortitudine. Me acende em presença e fé. Fortitudine. 

     Assim seja.

     - Moça, como se chama essa árvore?

     - Milagre da terra. Baobá. A madeira dela é reaproveitável, você estudou? Qual é o nome dessa praça, moça?

     - Praça dos Mártires é mais bonito.

     Vênus, Afrodite e Diana descascadas nos pedestais. Caixa d’água azul, aliás, verde, vinda da Inglaterra. Um mortal, umbigo ao léu, bermuda de brim e havaianas encardidas, dorme de lado nas ripas pintadas de verde, segurando no ombro uma camiseta branca ao avesso, pernas feito tesoura aberta, pé esquerdo apoiado na parte mais alta do banco da praça.

     Crosta, manto, núcleo. O centro da Terra me absorve, enquanto dezenas de adolescentes em guerra química,  amontoados nos pés do baobá, extravasam hormônios aos litros. Onde moro, vi o nascente caminhar para a esquerda, livrar os prédios e iluminar a varanda. Matei muitas plantas de calor até começar a olhar pra elas como quem quer ver. Matei babosas. Crê? Não noto, já é domingo, mas ontem foi terça! Como pode, plantinhas? 

     Me afasto em direção à Santa Casa. Narcóticos anônimos, dez mulheres sentadas na muretinha interna do coreto, nunca fui a uma reunião, mas que vontade desse cafezinho rodando de uma por uma na garrafa térmica. Avenida Caio Prado, nível do Passeio que fica mais perto do mar, no passado destinado às abastadas, vestidos longos e braços cobertos até os punhos. Suor e suplício a la belle époque. Quantos graus?

      Nada de Jana. Sento em um banco quase molhado. Tenho almoço na mochila.
Macarrão–parafuso com molho de tomate de sachê, passas, queijo coalho, milho de sachê. Amo esquecer que trouxe comida e lembrar num susto.

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